Introdução
Imagino que já tenha reparado, em alguma viagem de férias, ou num
congresso de estudantes, talvez naquele acampamento de fim de semana. Na
verdade, em qualquer situação que o traz de volta cheio de histórias. Você já percebeu
que tem momentos nos quais o tempo passa mais devagar?
Os céticos vão rir enviesado e disparar que “é psicológico” ou
outros argumentos do tipo. No entanto, este
fenômeno foi estudado pelo próprio Einstein, em 1905, que declarou que tempo e
espaço são relativos. Simplificando e=mc² para o nível tosco, quanto mais um
corpo se movimenta, mais devagar o tempo passa em relação a ele.
Vive-se mais em
movimento do que parado.
Bom, além disso, tem algo bem simples que quero deixar claro antes
de você seguir esta leitura: as vidas das
pessoas são medidas por suas histórias. E isso não sou eu quem diz. Está em
qualquer descrição que você encontre, o que define alguém que já se foi são os
acontecimentos de sua passagem por aqui.
Há um amontoado de gente que poderia receber o mesmo epitáfio
curto, grosso e sem gosto como “Aqui jaz mais um. Nasceu, cresceu e morreu”. Por
outro lado, existem pessoas que passam o tempo na terra chutando, odiando,
amando, chorando e gozando, roxas, amargas, doces, intrigantes, em perigo e em
exuberante movimento, e não me refiro
unicamente ao físico, mas ao filosófico andar.
Escrevo para defender a sensação pesada como rocha dentro de meu
estômago de que passei já décadas vagando por aí, e não apenas o que o
calendário, outro cético, teima em estampar. Não sou o único que pensa assim,
nem essa declaração se pretende uma descoberta. Falei com tantos viageiros sobre o tempo que cheguei à
conclusão de que todos sabem.
É claro que há outros bons jeitos de viver além de viajar. Contudo,
ao vagar, algo mítico e ancestral nos religa aos antepassados mais longínquos e
faz com que possamos vislumbrar os fios que nos tramam à história do próprio
universo.
Botei o pé na estrada com 20 e poucos anos, agora, com certeza, me
sinto muito mais velho que isso, no melhor sentido. Passei por coisas que tento
dividir com você, ainda que seja impossível, já que é preciso ir ver. O que
aconteceu me envelheceu deixando ódio e amargura, ou em outras ocasiões me rejuvenesceu
e ganhei de volta um sopro de ingenuidade otimista. Me sinto bem mais velho do
que realmente sou. Não por ter ficado mais amargo que ingênuo, ao contrário,
mas por ter vivido bastante em pouco tempo, ao menos em comparação com o antigo
estilo de vida planejado e seguro onde cada peça deveria se encaixar como um
grande quebra-cabeças de sucesso.
...
Você compreendeu. Mais aliviado, posso cantar a alegria de ter caminhado
com sábios de mais de duzentos anos. Eles estão por aí pescando, vendendo
brincos, entortando arame, de mochilas nas costas, tênis rasgados, no fim da
sétima vida, o corpo magro e o rosto cheio de marcas de sol e vento frio, tocam
violão cantando o valor da comida, catam lixo, enfiam-se em barracas apertadas,
gastam seu tempo se preocupando em salvar cachorros abandonados, amam e são
traídos, traem e são amados, sempre em movimento, até a última gota de sangue
pulsante,
até que chegue, DE SURPRESA,
a última linha, e o então
bem-vin-do-pon-to-fi-nal.
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